Colar a transcrição de uma reunião num chat e pedir "faça uma ata" parece resolver a burocracia em segundos. O texto sai bem escrito, organizado em tópicos, com tom profissional. O problema é que bem escrito não é o mesmo que correto, e no registo clínico essa diferença pesa.

O texto que parece bom

Em inglês, chama-se de slop o conteúdo gerado por IA que tem cara de trabalho caprichado, mas é genérico, longo e vazio. Na clínica, ele aparece de alguns jeitos conhecidos:

  • Frases que servem para qualquer criança: "a criança apresentou evolução significativa em diversas áreas do desenvolvimento". Não diz qual área, quanto, nem comparado a quê.
  • Texto longo demais: três parágrafos onde cabiam três linhas. Ninguém relê, e o que importa se perde no meio.
  • Tom de certeza sobre o que não foi decidido: uma ideia levantada no meio da conversa vira "ficou definido que".
  • Fatos inventados: um número de oportunidades que ninguém registou, uma profissional que não estava na reunião, uma fala atribuída à mãe que ela não disse.
  • Datas relativas: "amanhã" e "semana que vem" copiados da conversa, que perdem o sentido quando a ata é lida um mês depois.

O mais perigoso é que esses erros não parecem erros. O texto fluido passa confiança, e quem está com pressa assina.

Os riscos da IA genérica

Uma ferramenta de chat aberta não sabe nada sobre o caso. Ela não conhece a criança, o plano, os objetivos em andamento nem a equipa. Por isso, ela preenche as lacunas com o que é provável, não com o que é verdade.

Há também o risco de privacidade. Copiar dados de uma criança para uma ferramenta fora do processo clínico tira essa informação do controlo da clínica: quem acede, por quanto tempo, com que finalidade. Dados de saúde de uma criança são dados sensíveis.

Quanto tempo a IA genérica poupa de verdade

A promessa é escrever em segundos. Na prática, sem integração, o caminho costuma ser outro:

  1. Copiar a transcrição, ou parte dela, do lugar onde ela está.
  2. Explicar à ferramenta quem é a criança, quem é a terapeuta, quem é a mãe, o que está no plano.
  3. Ler o resultado e perceber que ficou longo, genérico ou com algo errado.
  4. Pedir de novo: "mais curto", "sem essa parte", "a decisão não foi essa", "a data era outra".
  5. Repetir até ficar aceitável.
  6. Conferir linha por linha contra a transcrição, porque a ferramenta não mostra de onde tirou cada frase.
  7. Copiar o texto final de volta para o processo clínico, ajustar a formatação e definir quem pode ver.

Cada volta desse vaivém custa minutos, e a conferência final é a parte mais lenta: sem a referência ao trecho de origem, rever um texto gerado é quase tão trabalhoso quanto escrevê-lo. No fim do mês, o tempo poupado na redação foi gasto em explicar, pedir de novo e conferir.

Com a IA integrada, a maior parte dessas etapas some. O contexto já está no sistema, o formato já é o do registo clínico, cada sugestão aponta o trecho que a sustenta, e o texto revisto é guardado direto no lugar certo. A revisão vira uma leitura atenta, não uma reescrita.

O que muda quando a IA está integrada

A IA faz mais sentido dentro do sistema onde o trabalho clínico já acontece. Integrada ao processo clínico, ela trabalha com contexto, com limites e com revisão:

  1. Contexto real: ela conhece a criança, a equipa e os familiares vinculados, e o plano em andamento. Não precisa adivinhar quem é quem.
  2. Evidência visível: cada sugestão ou resposta mostra o trecho da transcrição que a sustenta. Quem revê confere em segundos, sem reler tudo.
  3. Formato clínico: o texto segue um formato pensado para o registo: terceira pessoa, datas absolutas, só a decisão final, ações agrupadas por responsável. Sai mais curto e mais objetivo.
  4. Nada vira registo sem revisão: a IA sugere e escreve, mas o profissional lê, ajusta e decide o que guardar.
  5. Mesmas regras de acesso: o texto gerado fica no processo clínico, com a mesma visibilidade de qualquer nota: equipa, família ou apenas o autor.

Como rever um texto gerado por IA

Mesmo com uma boa ferramenta, a responsabilidade pelo registo é de quem assina. Antes de guardar, confira:

  • Os nomes e funções estão certos? Alguém foi citado sem ter participado?
  • Os números batem com o que foi registado na sessão?
  • As datas são absolutas e corretas?
  • O que está como decisão foi mesmo decidido?
  • Dá para cortar alguma coisa sem perder informação?
  • Quem vai poder ver esta nota?

Como o Proaba usa IA

No Proaba, a IA trabalha dentro do registo clínico:

  • Nota de voz: depois da transcrição, o Proaba sugere o que escrever, como uma ata de supervisão ou uma atualização do plano para a família, e cada sugestão mostra o trecho que a justifica.
  • Ata: datas absolutas, registo clínico em terceira pessoa, só a decisão final, ações por responsável, sem atribuir falas a quem não falou.
  • Gravação de sessão: o resumo cruza a transcrição com o plano e mostra o que foi planeado, o que foi registado e o que aconteceu mas ainda não foi registado.
  • Pergunte à sessão: cada resposta vem com os trechos da transcrição que a fundamentam, e um clique leva ao ponto do vídeo.

Em todos os casos, o profissional revê antes de guardar e escolhe para quem o registo fica visível. A IA poupa a redação, e o julgamento clínico continua com a equipa.